Era uma vez...

Capa da revista Placar de março de 2008.

Era uma vez um jogador, natural de Sobradinho (DF), que estreou nos profissionais do Goiás em 1995 e foi pentacampeão estadual nos anos de 1996, 1997, 1998, 1999 e 2000. Foi para a Arábia em meados de 2001 e retornou ao clube goiano no meio do ano seguinte. No início de 2003, foi contratado pelo Botafogo com o objetivo de disputar a Série B do mesmo ano e confirmar o retorno do Glorioso à elite.

Foi vice-campeão, subiu, disputou toda a temporada de 2004 e, na metade da temporada de 2005, foi para o Japão. Por lá, ficou um ano e meio, anunciando seu retorno ao Brasil no início de 2007. Logo de cara, sua identificação com o Botafogo falou alto e o clube tornou-se prioridade. Entretanto, o Fluminense entrou forte na briga e ofereceu um salário maior que o alvinegro.

Nesse momento, Túlio deixou de ser mais um das estatísticas para entrar no seleto grupo de jogadores que honraram a Estrela Solitária do lado esquerdo do peito. Poderia ter se tornado mais um Reidner (volante que também foi revelado pelo Goiás e defendeu o Botafogo nos anos de 1999, 2000 e 2001, fazendo um dos gols importantes que evitou o rebaixamento no Brasileiro de 1999, o gol único da vitória contra o Guarani no Maracanã). Recusou a proposta tricolor e, com uma proposta inferior, aceitou defender o alvinegro mais uma vez.

Lembro de sua estreia. Maracanã com rodada dupla com Flu e Botafogo. Do lado esquerdo das cabines (sim, naquela época essa torcida se posicionava desse lado e não tinha polêmica nenhuma a isso) festejava a estreia do novo atacante Rafael "He-Man" Moura (quem? Ou seria da She-Ra?). Do lado oposto, o povo botafoguense reverenciava o retorno de um ídolo.

2007. Júlio César; Joilson, Juninho, Alex (Renato Silva) e Luciano Almeida; Túlio, Leandro Guerreiro, Lúcio Flávio e Zé Roberto; Jorge Henrique e Dodô. Cuca como técnico. Esse time ficará na memória dos botafoguenses que viveram essa época ainda por um bom tempo. Futebol bonito de se ver, jogadas e gols espetaculares. A Taça Rio desse ano foi pouco pelo que merecíamos. A perda do estadual nos pênaltis, a semifinal perdida para o Figueirense, o doping do Dodô no Brasileiro e a eliminação para o River de Falcao ainda não passaram pela goela de muita gente.

Em pé: Max, Alex, ?, Rafael Marques, Leandro Guerreiro, Juninho, Júlio César e Dodô. Agachados: Juca, Túlio, Luís Mário, André Lima, Diguinho, Luciano Almeida, Joílson, Lúcio Flavio, Zé Roberto e Jorge Henrique.
Vem a temporada de 2008 e vem o bi-campeonato da Taça Rio, mais uma derrota na final do estadual e mais uma eliminação na semifinal da Copa do Brasil (derrota para o Corinthians nos pênaltis). Ao final desse ano, alegando desgaste emocional, o querido volante reincide o seu contrato para nunca mais voltar a defender nossas cores.

Ainda foi campeão estadual pelo Corinthians em 2009 e gaúcho pelo Grêmio em 2010. Mas tenho a convicção que o bem-estar de ter levantado essas taças não chega aos pés do período que esteve em General Severiano. Se envolveu emocionalmente de tal forma que o Botafogo continuava vivo durante sua carreira.

Em um de seus últimos clubes, o Figueirense, lembro de uma partida entre Botafogo e o clube de Santa Catarina no Nílton Santos em que foi ovacionado pela nossa torcida, antes do apito inicial e durante a sua substituição no decorrer do jogo. Nosso eterno camisa 5 foi recíproco conosco, aplaudindo nossa atitude e nos reverenciando. Que nada, Túlio! Você mereceu todos os gritos e aplausos daquela noite.

Túlio não conquistou nenhum título oficial vestindo a nossa camisa. Infelizmente. Mas nada que diminua a sua importância. O Botafogo é um clube reconhecidamente de craques e de uma torcida apaixonada que mantém viva em sua memória os seus ídolos. Túlio faz parte dessa galeria. É possível montar quatro, cinco, seis, dez esquadrões com jogadores que vestiram a nossa camisa. Abaixo, um timaço apenas com jogadores que não levantaram nenhuma taça oficial:

Paulo Sérgio (semifinalista do Brasileiro de 1981 e convocado para a Copa do Mundo de 1982 defendendo o Glorioso).

César Prates (vice-campeão da Copa do Brasil de 1999 e exímio cobrador de faltas).
Sandro (vice-campeão da Copa do Brasil de 1999 e Brasileiro - Série B de 2003).
Osmar (vice-campeão carioca de 1971 e integrante do time que detém o recorde de invencibilidade do futebol nacional entre 1977 e 1978).
Marinho Chagas (A Bruxa, convocado para a Copa do Mundo de 1974 defendendo o Glorioso).

Túlio
Alemão (convocado para a Copa do Mundo de 1986).
Mendonça (integrante do time que detém o recorde de invencibilidade do futebol nacional entre 1977 e 1978 e semifinalista do Brasileiro de 1981).

Fischer (maior artilheiro estrangeiro do clube, com 68 gols em 180 jogos).
Heleno de Freitas (vice-campeão carioca em 1942, 1945, 1946 e 1947, sendo o quarto maior artilheiro do clube com 209 gols em 235 partidas).
Chicão (vice-campeão brasileiro em 1992, sendo o artilheiro do time na competição desse ano com 12 gols).

Ainda poderia citar Perivaldo, Rocha, Rodrigo Beckham, entre tantos outros que honraram a nossa camisa e tem a admiração de boa parte da torcida. Infelizmente, o destino não os presenteou com um título. Mas a maior importância nessa história toda é a afirmação de todos esses jogadores que reforçam o orgulho de ser botafoguense. Um clube que tem uma rica e vasta história e que é a nossa maior glória. E Túlio, sem sombra de dúvida, faz parte dela. Com louvor.

Um jogador que não se intimidou ao enfrentar o vilão rubro-negro, não se sentiu seduzido pelo vilão tricolor e não se acovardou com o vilão cruz-maltino e tantos outros, com seus emblemas e cores. Túlio, assim como todo herói das histórias infantis, enfrentou e derrotou todos os ogros, bruxas e dragões.

E viveu feliz para sempre. Eternamente em todos os corações alvinegros.

Grato, Túlio!

Por: Thiago Hildebrandt.
Era uma vez... Era uma vez... Reviewed by Thiago Hildebrandt on agosto 06, 2015 Rating: 5

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